Laços estreitos, relações pacíficas!

Relações pessoais

Deixando ainda em suspenso nossa questão sobre quem terá sido o primeiro brasileiro a pisar em terras belgas, vamos explorar mais um pouquinho alguns aspectos curiosos dos belgas em “terra brasilis”…

O rei Philippe e a rainha Mathilde estarão no Rio de Janeiro, entre os dias 4 e 8 de agôsto próximos, para assistirem à abertura dos Jogos Olímpicos.

Ótima ocasião para falarmos um pouco sobre os laços belgo-brasileiros, tanto no aspecto “pessoal” como “empresarial”!

Estes laços datam de longe, muito longe…

Quando o rei Filipe II de Espanha, herdeiro de Charles V, em cujo reinado “o sol nunca se punha”, subiu ao trono de Portugal em 1580, o sul da Holanda pertencia, já há 60 anos, a um império que englobava também o Brasil.

Durante este período, « belgas » e « brasileiros » foram, portanto, governados por um mesmo soberano e sua capital comum era Madrid.

Curioso, não? Mas é a pura verdade!

Data desta época a criação de um considerável número de mapas do Brasil, em sua maioria realizados em Antuérpia, para clientes espanhóis e portugueses, a fim de lhes permitir ter uma “visualização cartográfica” do vasto continente americano e particularmente do Brasil, cuja exploração estava apenas começando.

Bem mais recente, a Conferência de Versalhes (1919) permitiu uma aproximação entre Epitácio Pessoa (1865-1942), chefe da delegação brasileira e recém-eleito presidente da República com o rei belga Albert I.

O papel da Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial teve, sem dúvida, uma forte influência no fato de o presidente ter convidado os reis da Bélgica a passarem 6 semanas no Brasil.

Aceito o convite, o Brasil tratou de se preparar para a visita, que ocorreu em outubro de 1920.

O Itamaraty organizou a festa de forma que os convidados estivessem cercados de todo o conforto que exigia sua condição real.

O prefeito da capital (Rio de Janeiro, nesta época), engenheiro Carlos Sampaio (1861-1930), correu para cuidar da aparência da cidade, retocando os lugares por onde passaria o cortejo, como a Praça Mauá, a Avenida Rio Branco, as ruas da Zona Sul e as estradas do Alto da Tijuca.

A chegada, numa tarde de domingo, 19 de setembro de 1920 , foi apoteótica: o povo correu às ruas para receber os soberanos belgas.

Enquanto Alberto e Elizabeth percorriam o trajeto que ia do cais do porto ao Palácio Guanabara, a multidão, alinhada por um cordão de isolamento, saudava entusiasmada a passagem do casal real.

Um detalhe pitoresco exemplifica bastante o prazer e a cordialidade que marcaram esta visita:

Os brasileiros estavam cientes da paixão de Albert I pelo montanhismo.

Na última parte da subida do Pico da Tijuca (o pico mais alto do Rio) foi talhada na rocha uma escada para facilitar a ascensão.

Consta que o rei Albert teria preferido escalar a parede rochosa por seus próprios meios mas teria manifestado o desejo de que a obra servisse de estímulo para que a população começasse a praticar o alpinismo.

Outro fato curioso se refere ao gosto do rei pelo banho de mar.

“Nas 14 manhãs que passou no Rio, o monarca saltava da cama diretamente para a praia de Copacabana.

Todo dia era dia de banho de mar.

Chegava pouco antes das 7horas, trocava de roupa num palacete da Avenida Atlântica e seguia de carro para a enseada do Posto 6.

A notícia se espalhou no primeiro dia e logo atraiu milhares de pessoas, que passaram a assistir, da avenida e das areias, aos banhos do rei.

Até dentro do mar, guardando uma distância respeitosa, dezenas de banhistas seguiam os exercícios de natação de sua majestade.

E no final, a multidão aplaudia o Rei!”

Nesta viagem, Albert I foi proclamado doutor honoris causa da Universidade do Rio de Janeiro e nomeado Vice-Presidente Honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Além disso,  recebeu o título de  cidadão honorário e foi promovido  Marechal da Exército Brasileiro!

A visita real gerou um grande interesse pelo Brasil.

Mais de 400 expositores representando a indústria belga estavam presentes no pavilhão belga durante Exposição Universal no Rio em 1922.

Ainda durante esta visita, a rainha Elizabeth ficou tão encantada  com a música popular brasileira que o compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920) teve a ideia de lhe dedicar uma série de canções.

As partituras foram encontrados nos arquivos do Palácio de Laeken e voltaram para o Rio, onde foram novamente executadas e gravado em CD.

Mais tarde, o rei Leopoldo III, que havia acompanhado seus pais nesta viagem, retornou várias vezes ao Brasil, visitando principalmente o Mato Grosso e Amazônia,onde permaneceu por mais tempo, em vista de certas  explorações antropológicas.

Ele reuniu varias anotações e principalmente muitas fotos em um livro se tornou uma referência para muitos especialistas.

Os descendentes em linha direta do nosso último imperador, D. Pedro II e de sua filha, a princesa Isabel – casada com o conde francês d’Eu – são aparentados com a família real belga através do casamento de  Dom Antonio de Orléans e Bragança com Christine de Ligne, assim como pelo casamento de Michel de Ligne com a princesa Eleonora de Orléans e Bragança, irmã de Antônio.

O primeiro casal vive em Petropólis, no estado do Rio, enquanto que o segundo vive na Bélgica.

Ciências, educação e cultura

Durante a segunda metade do século XIX, estudar na Bélgica era algo muito bem considerado. Os brasileiros atribuiam a prosperidade económica da Bélgica daquele época à qualidade do seu ensino superior.

Entre 1860 e 1870, nada menos do que 700 brasileiros estudaram em universidades belgas!

O engenheiro-arquiteto Francisco Ramos de Azevedo, ex-aluno da Universidade de Gand é o autor, por exemplo,  do projeto do Mercado Municipal e do Teatro Municipal de São Paulo, dois grandes pontos turísticos da cidade.

Estes trabalhos mostram claramente o seu amor pela “art nouveau”, que ele havia descoberto na Bélgica.

Os vitrais e espelhos importados da Bélgica ainda são visíveis no Teatro Municipal.

O arquiteto usou esse mesmo tipo de material em sua residência em São Paulo, a “Casa das Rosas” – que hoje abriga as faculdades da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) – assim como no belíssimo e consagrado Café Colombo, no Rio de Janeiro .

Francisco Ramos de Azevedo é também co-fundador da famosa Escola Politécnica de São Paulo (1893), fundamental no processo da rápida industrialização vivida cidade.

O engenheiro Hubert Puttemans, belga,  foi um de seus primeiros professores.

O Monsenhor Charles Sentroul, grande filósofo belga, fundou a Faculdade de Filosofia na primeira Universidade Católica, no Convento de São Bento, em São Paulo (1908).

À partir de 1922, a Faculdade foi dirigida por Leonard Van Acker.

Um irmão deste último esteve à frente do famoso Instituto Butantã e deu um impulso decisivo para o laboratório do Instituto, visando a fabricação de várias vacinas e antídotos contra venenos de serpentes, aranhas e escorpiões, bem como contra a raiva.

A Escola Superior de Agricultura « ESALQ » foi fundada por universitários belgas – Louis Misson – entre outros – calcada no modelo da Faculdade, hoje “Agro-Bio-Tech”,  de Gembloux.

Nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial (1912), o estado de Minas Gerais enviou um grupo de emissários à Bélgica, com o objetivo de recrutar professores para o novo Instituto de Electrotécnica e Mecanica – atual Escola Federal de Engenharia –  em Itajubá/MG. Armand Berthollet (Liège), Victor van Helleputte e Arthur Tolbecq (Charleroi) aceitaram a missão.

E não acaba por aqui!

Para os apreciadores de história ou para os que são curiosos e gostam de “rechear” os bate-papos com assuntos do gênero, a matéria terá uma “parte II” no próximo mês!

Até lá, bom mês de agosto, com muito sol brilhando nas cabeças, nos corações e… nos corpos, lógico (!), que todos precisamos compensar uma certa carência de vitamina D!!!

Beijocas!

Cet article a été initialement publié dans la revue Revista Emigrar

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