Teatro Municipal, Rio de Janeiro

A Bélgica no Rio de Janeiro

Você é do Rio de Janeiro? Senão, você conhece o Rio?

Sabemos, são inúmeras, tanto e tão maravilhosamente descritas as suas belezas naturais!
Montanhas, céu, sol, mar… tudo reunido pela mãe-natureza para fazer da cidade esta beleza única, cantada em mil poemas e infinitas notas musicais.

Gente cordial, hospitaleira como afinal somos conhecidos todos nós, brasileiros de alma e coração!

Mas você já andou por lá apreciando, além de tudo o que até acabou se transformando em “cliché”, o patrimônio arquitetônico da cidade, principalmente na parte mais antiga?

Tem ideia de quanto de “presença belga” pode surgir no seu nosso caminho, ao longo de andanças nem tão longas assim?

Quem vai ao restaurante Ancoramar, na Praça Marechal ncora (antigo Largo do Moura), no centro histórico do Rio, vizinha à Praça XV, estará entrando dentro de uma obra de arte belga!

É a parte que “sobrou” do antigo Mercado Municipal do Rio de Janeiro, projetado na primeira metade do século XIX pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny.

Mercado Municipal Rio de Janeiro
Mercado Municipal Rio de Janeiro

O Mercado ficava na beira da antiga praia de D. Manuel, junto do largo do Paço e o objetivo de sua criação foi o de organizar, coordenar o comércio de gêneros alimentícios, principalmente peixe, na zona central da cidade.

Seu projeto era bastante arrojado para a época, tendo sua parte principal a forma quadrada, com pavilhões longitudinais e cinco torreões octogonais – um maior no centro, “decorado” com um relógio, e quatro menores nos ângulos externos.

De toda a obra, eram esses pavilhões octogonais, junto com os portões, os elementos onde se concentravam as preocupações, digamos, “decorativas”.

A belíssima estrutura metálica destes pavilhões foi toda importada da Bélgica, do “Atelier de Willebroeck”.

O Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, de 14/12/1907 conta que a montagem do pavilhão central e dos quatro pavilhões angulares foram realizados sob a direção de um eng° do “Atelier Willebrock”.

Certamente a montagem dos mesmos exigiu um alto conhecimento técnico em função de sua complexidade estrutural, principalmente por causa de sua forma octogonal.

Foi em um desses torreões menores que foi inaugurado em 12 de novembro de 1933, o restaurante Albamar, de propriedade do empresário Rodolfo Souza Dantas (quem conhece a Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana?) e que se tornou incontornável na vida do carioca durante mais de meio século.

Nos anos 50, o Mercado do Rio, esta obra de valor único, foi demolido para a construção do elevado da Perimetral!

Felizmente a pequena torre do restaurante sobreviveu!

O Albamar encerrou suas atividades, como “marca”, em 2008 mas os novos proprietários mantiveram o restaurante no mesmo local, rebatizaram-no de Ancoramar e mantiveram o mesmo “Chef”.
Um trabalho de “revitalização” da obra está em andamento, com previsão de encerramento para 2017.

Saindo de lá, indo em direção à Cinelândia, acabamos por nos ver face à face com este estupendo Teatro Municipal.

Teatro Municipal, Rio de Janeiro
Teatro Municipal, Rio de Janeiro

Que maravilha!

Foi por insistência de um gênio da nossa literatura, Arthur Azevedo, que em 1894 foi criada a lei que previa a construção de um teatro municipal no Rio de Janeiro.

Foi o eng° Pereira Passos, então prefeito da capital federal – Rio de Janeiro, nesta época – quem lançou, em 1903, um concurso para um projeto de construção do teatro, como parte do seu projeto de renovação e modernização urbana.

Sete projetos foram apresentados, sendo que dois se destacaram e ficaram empatados em primeiro lugar: o “Áquila”, pseudônimo do engenheiro Francisco de Oliveira Passos, e o “Isadora”, pseudônimo do arquiteto francês Albert Guilbert.
Os dois projetos acabaram sendo fundidos em um só.

Considerado um dos mais belos edifícios da cidade, incluído na lista das “7 maravilhas do Rio de Janeiro”, ele foi totalmente restaurado e reinaugurado em 27 de maio de 2010.

Neste trabalho de restauro foram usadas 219 mil folhas de ouro, 57 toneladas de cobre e 1500 novas luminárias com um total de 5 mil lâmpadas!

Todas as paredes foram restauradas e até mesmo certas obras de arte decorativas que estavam “escondidas” por reformas anteriores acabaram ressurgindo.

Onde a “presença belga”?

Na parte inferior da fachada e das laterais, as escadarias são de granito da Candelária, bem como os pedestais das colunatas e as guarnições das portas de acesso do público.

A coloração do granito faz destacar os bronzes, as seis colunas centrais de mármore italiano e as de mármore belga das rotundas laterais.

As três portas principais são de madeira, protegidas por portões de bronze, medindo 1,4m (L) X 1,6 (H) e tendo a logomarca do Teatro Municipal.
Estes portões foram moldados pela empresa belga “ Compagnie des Bronzes”!

Esta fábrica de arte em bronze, inaugurada em 1854 e situada em Molenbeek (Rue Ransfort, 27) era internacionalmente conhecida pela excelência de seus trabalhos.

A lista dos monumentos realizados por eles é imensa e pode ser admirada em várias cidades belgas.

Em Bruxelas, por exemplo, podemos apreciar as belas estatuetas em homenagem às antigas profissões que se encontram no Petit Sablon (1882).

No domo do Palácio de Justiça existe um conjunto de 4 estátuas que datam de 1882.
Em Antuérpia, podemos contemplar a bela fonte de “Brabo” (1886)e em Bruges, o monumento “Breydel et De Coninck” (1886)

Isto mostra que nossos “pequenos portões” do Teatro Municipal do Rio não são meros portões mas sim verdadeiras obras de arte!

Ainda tem uma outro belíssima trabalho, feito pela mesma “Compagnie des Bronzes”.
Trata-se de um baixo-relevo, “O Trabalho do Aço”, que podemos ver na Quinta da Boa Vista, no lado externo do zoológico.

Esta obra foi oferecida pelo Governo Belga à cidade do Rio de Janeiro, em comemoração aos 100 anos da Independência, em 7 de setembro de 1922. O bronze mede cerca de 3m70 de largura por 2m00 de altura.

Não, não é tudo… Nosso passeio pelo Rio ainda não terminou!

Já que estamos na Quinta da Boa Vista, vamos usufruir deste lindíssimo parque que, no século XIX fazia parte do Palácio de São Cristóvão, residência oficial da família imperial do Brasil e onde tantas vezes o carioca pode curtir extraordinários concertos, gratuitos e ao ar-livre, do lindo projeto cultural chamado “Projeto Aquarius”.

Pausa para descanso e… continuamos nosso passeio no próximo mês!

Até lá!

Referências:

Cet article a été initialement publié dans la revue Revista Emigrar

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