Nós aqui… e eles, lá!

Nós aqui… e eles, lá!

Tanto já se falou sobre a imigração e certamente muito ainda se falará…

Estes 5 séculos de relações entre o Brasil e a Bélgica proporcionou a ambos os países  significativas possibilidades de trocas nos mais diversos e variados setores – cultural, tecnológico, comercial, etc…

Por volta de 1888, na região açucareira de Porto Feliz e Lorena foi fundada a “Colônia Rodrigo Silva” foi criada para atrair e ficar trabalhadores de diversas origens, especialmente a mão de obra estrangeira, bem mais valorizada e considerada mais “comprometida” com o trabalho.

O padre Jean Baptiste Van Esse, atraído pela possibilidade dos lucros que certamente proporcionariam a formação de uma colônia belga no Novo Mundo e entusiasmado com a visível fertilidade das terras da região, escreveu à Diretoria da Sociedade Central de Imigração uma carta, datada de 13 de janeiro de 1888, dando pormenores do seu projeto, no qual seriam investidos 50.000 francos belgas.

Autorizado pelo Aviso nº 111, de 16 de novembro de 1887, do Ministério da Agricultura, o Inspetor Geral das Terras e Colonização assinou, no dia seguinte, um minucioso contrato com o padre Van Esse .

De acordo com este contrato, seriam introduzidas 50 familias na colonia, sendo 45 familias necessariamente de agricultores, a começar do início de maio de 1888 até 31 de maio de 1889.

Cada familia era obrigava a trazer um capital minimo de 1.000 francos além dos utensilios domésticos e implementos agrícolas.

As despesas com o transporte dos colonos e de suas bagagens ficavam por conta do governo.

O núcleo colonial ficaria sujeito à jurisdição civil, segundo as leis e disposições em vigor no Império e o padre VanEsse, na qualidade de “diretor espiritual”, seria um representante remunerado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Publicas.

As primeiras 25 famílias chegaram ao Brasil a bordo do navio Hipparchus.

Do porto de Santos partiam de trem com destino a Itu ou Sorocaba, de onde alcançariam Porto Feliz a pé ou em carro de bois.

Em fins de maio de 1888 requereram os seus lotes os seguintes colonos: Alexandre Libois, Edouard Leroy, Vital Kestemond, Felix Wayens, J.B. Vanerwyck, J.J. Descolte, Juies Bertz, François Aerre, François Labenne, Ferdinand Boudart, Auguste Dubois, Hubert Dumont, Augustine Detry, Gustave Dumont, Genius Despontin, Edmonde Taupe, Emile Gérard Ballion, Adelin Péters e Auguste de Becquerot.

No período entre 1819 e 1940 em todo o país foram registrados mais de 16.000 imigrantes belgas, em sua maioria agricultores e padeiros.

Todos atrás de condições de trabalho e vida melhores das que viviam em seu país de origem.

Antes da criação da colônia de Porto Feliz, um importante grupo de belgas percorreu, num primeiro momento,  o Nordeste do Brasil.

Alguns decidiram se instalar no Ceará, outros em Pernambuco e na Paraíba mas a maior parte se dirigiu e terminou por se estabelecer principalmente em São Paulo e em Santa Catarina.

Em contrapartida, ainda que sendo um país tradicional de imigração, o Brasil conhece, desde os anos oitenta a chamada “migração negativa”.

Pelo menos 4 milhões de brasileiros emigraram nos últimos anos.

Em relação à Europa, as principais comunidades brasileiras encontram-se em Portugal,  na Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e França.

Este processo migratório na Bélgica se acentuou com a chegada de refugiados políticos, artistas, jogadores de futebol e estudantes fugindo do golpe militar de 1964.

Desde os anos 80, na sequência das mudanças políticas no Brasil esta primeira onda de imigração voltou para casa e espalhou-se então a ideia de que a Bélgica era um “país de refúgio”, pronto a acolher os brasileiros e, o mais importante, com grandes possibilidades de trabalho e de uma qualidade de vida superior que a do Brasil de então.

Este conceito ainda predomina naqueles que sonham com uma melhor qualidade de vida e que, direta ou indiretamente, conhecem alguém que vive ou já viveu na Bélgica.

O desenvolvimento das relações entre os dois países, permitiu a imigração de profissionais qualificados que trabalham para instituições multinacionais ou internacionais na Bélgica e um natural processo de sedimentação de famílias brasileiras.

A “pressão econômica”, uma constante – ainda que com altos e baixos –  desde os anos 90, tem estimulado onda de emigração em permanente evolução, mesmo com as dificuldades cada vez maiores para se conseguir “vistos de permanência”.

Uma importante massa de brasileiros prefere viver sem nenhum “status” legal, nenhuma estabilidade empregatícia e dentro de uma comunidade composta de inúmeros ilegais – que, de um modo geral, se protegem -, sujeitos a serem denunciados por algum desafeto ou a serem lesados por pessoas sem escrúpulos, que exploram o trabalho dito “au noir”, ou seja, ilegal.

Ainda assim, preferem viver nesta precária balança onde o mais importante é conseguir chegar em casa depois de um dia de trabalho – sem serem pegos pela polícia e reenviados ao Brasil – do que viver a realidade ainda mais dura dos brasileiros que , na grande maioria dos casos, tiveram pouca oportunidade de estudos e não tem uma profissão que possa, em sua própria terra, garantir a dignidade de vida que, bem ou mal, acabam tendo aqui e em outros países que “fecham os olhos oficiais” à sua presença.

Esta importante comunidade – entre 40.000 e 50.000 – têm seu próprio “estilo de vida”, com uma significativa presença de lojas brasileiras ou outras que vendem produtos brasileiros, “boîtes de nuit”, bares, “especialistas” em estética e mesmo diversas representações religiosas.

A partir de 2001 este processo migratório se acelerou consideravelmente mas o destaque passou a ser a mão de obra qualificada e mesmo a “altamente qualificada”.

Em 2011, o programa “Ciência sem Fronteiras”, criado para promover “a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional”, possibilitou a vinda de uma grande contingente de estudantes, já no nível de pós-graduação, que vieram fazer uma especialização, mestrado e  doutorado.

Este programa existiu até 2015 mas muitos desses estudantes, vindos em sua maioria acompanhados de suas esposas, acabaram por “adotar” o país e graças ao seu reconhecido alto nível  de capacitação, despertaram o interesse de empresas e universidades que acabaram por “adotá-los” também!

Em contrapartida é cada vez maior o número de empresas belgas que se instalam no Brasil, num processo natural de busca de Mercado, visto que não só o Mercado Belga é restrito como também, em função da crise econômica que se fez e ainda se faz sentir fortemente no Europa, a busca por “novos horizontes” tornou-se uma questão de sobrevivência para muitas pequenas empresas que, diga-se de passagem, são todas de altíssimo nível de qualidade.

Empresas de grande porte têm hoje suas filiais ou escritórios de representação no Brasil, o que é sempre um forte estímulo para a instalação de famílias dispostas a “mergulharem” neste nosso país tão gigantesco, imenso em cores e odores insuspeitados até então.

Além das empresas belgas, existem atualmente no Brasil cerca de 90 empresas com capital belga, todas geradoras de empregos locais.

Estudantes belgas em fim de formação universitária reconhecem hoje a importância de se fazer uma pós-graduação em Universidades brasileiras de renome tais como a FGV e a USP entre outras.

Sob o sol tropical, a maior representação comunitária belga ainda é São Paulo, ao ponto de ter sido criado o “Belgian Club” e o “Belga Corner”, tradicional bar que reúne belgas residentes no Brasil e interessados na cultura e gastronomia da Bélgica.

Lá como cá… restaurantes, padarias, franquias diversas em vários estados brasileiros permitem ao belga que optou pela mudança não se sentir completamente distante e afastado de sua terra natal.

Para nós, brasileiros daqui e eles, belgas de lá, oportunidades que certamente são inigualáveis, olhares únicos, vivências incomparáveis mas, sem dúvida nenhuma, todas experiências inesquecíveis!

Fontes:

  • Hommes & Migrations  – Revue française de référence sur les dynamiques migratoires
  • Info RTBF – Transversales: 50 mille brésiliens en Belgique?
  • La Libre.be : La Communauté brésilienne en Belgique
  • Livro: Brasil e Bélgica,Cinco séculos de relações entre Brasil e Bélgica
  • GGN – O Jornal de Todos os Brasis
  • O Raio X da Migração: os belgas

Cet article a été initialement publié dans la revue Revista Emigrar

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